22 de mai. de 2020

Esgoto pode indicar percentual de contaminados pela covid-19

Agência Brasil

Publicado em 22/05/2020 - 18:36 Por Pedro Peduzzi - Repórter da Agência Brasil - Brasília

Procedimento eficiente para a identificação de doenças infecto-contagiosas, o exame de fezes, quando feito em larga escala Рvia monitoramento de redes de esgoto Рpode ser uma forma eficaz de identificar o percentual de indivíduos contaminados pelo novo coronavírus (covid-19) em uma região. Entre as vantagens dessa técnica está a de abranger tanto pessoas que apresentam como que não apresentam os sintomas da doença (assintomáticas).

O monitoramento de esgotos como ferramenta de vigil√Ęncia epidemiol√≥gica n√£o √© uma novidade. Em meados dos anos 1850, o ingl√™s John Snow usou dessa ferramenta para entender a ocorr√™ncia da c√≥lera e identificar as resid√™ncias de pessoas que morreram por conta da doen√ßa no bairro do Soho, em Londres.

Projeto-piloto

Diante da expectativa de essa ferramenta poder ser aplicada tamb√©m para acompanhar a situa√ß√£o da atual pandemia no pa√≠s, o projeto-piloto Monitoramento Covid Esgotos est√° sendo implementado nos sistemas de esgoto de Belo Horizonte e Contagem, ambos de Minas Gerais. Ao fazer esse tipo de monitoramento, s√£o gerados dados que poder√£o ajudar os gestores na tomada de decis√Ķes inclusive sobre medidas como a de isolamento social.

A iniciativa, que ter√° dura√ß√£o inicial de dez meses, conta com a participa√ß√£o da Ag√™ncia Nacional de √Āguas (ANA) e do Instituto Nacional de Ci√™ncia e Tecnologia em Esta√ß√Ķes Sustent√°veis de Tratamento de Esgoto (INCT ETEs Sustent√°veis), entidade vinculada √† Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Segundo o coordenador do INCT ETEs Sustent√°veis e professor da UFMG, Carlos Chernicharo, a testagem do esgoto possibilita o diagnostico do conjunto de indiv√≠duos de uma comunidade. “Assim sendo, o esgoto passa a ser a amostra de fezes e de urina que representa o conjunto da popula√ß√£o”, explicou o professor, hoje (22), durante uma videoconfer√™ncia promovido pela ANA.

“O que fazemos √© novo apenas do ponto de vista de identificar a covid-19”, disse o professor. Os pesquisadores buscam, por meio desse projeto, identificar “tend√™ncias e altera√ß√Ķes” na ocorr√™ncia da covid-19 nas diferentes regi√Ķes analisadas, para entender a preval√™ncia e a din√Ęmica de sua circula√ß√£o.

Boletim

De acordo com o primeiro boletim da semana inicial dos trabalhos de campo do Monitoramento Covid Esgotos, a presença do novo coronavírus foi detectada em oito entre 26 amostras (31%). As coletas foram realizadas nas sub-bacias do Ribeirão Arrudas e do Ribeirão do Onça.

O objetivo da pesquisa √© o de mapear esgotos para indicar √°reas com maior incid√™ncia da transmiss√£o, de forma a subsidiar a ado√ß√£o ou n√£o de medidas, tendo por base a ci√™ncia. Al√©m disso, possibilita avisos precoces dos riscos de aumento de incid√™ncia do novo coronav√≠rus de forma regionalizada, para melhor embasar a tomada de decis√£o dos gestores p√ļblicos.

Na apresenta√ß√£o online, Chernicharo destacou que, com base no monitoramento do esgoto, “em teoria, um indiv√≠duo contaminado pode ser identificado dentro de uma popula√ß√£o de 100 a at√© 2 milh√Ķes de habitantes”.

Segundo o pesquisador, a implementação dessa ferramenta depende da disponibilidade de fatores como uma adequada infraestrutura laboratorial; o mapa da malha urbana de esgotos; a definição de pontos de amostragem; a coleta, preservação e transporte das amostras de esgoto; e o recebimento e processamento das amostras em laboratório. Uma nota técnica produzida pela equipe, na qual esses fatores são detalhados, será disponibilizadas a quem tiver interesse em conhecer o projeto-piloto.

Superintendente de Planejamento da ANA, S√©rgio Morais, explicou que a primeira detec√ß√£o do novo coronav√≠rus em fezes ocorreu em 31 de janeiro nos Estados Unidos. Em mar√ßo, um outro estudo, este na Holanda, detectou a covid-19 no esgoto. As coletas nos dois munic√≠pios mineiros que servir√£o de base para o projeto-piloto tiveram in√≠cio no dia 13 de abril. “Nossa ideia √© gerar uma metodologia, a partir desse projeto”, disse.

De acordo com o superintendente, a realidade brasileira apresenta limita√ß√Ķes com rela√ß√£o √† aplica√ß√£o dessa ferramenta em alguns munic√≠pios, uma vez que 45% da popula√ß√£o n√£o disp√Ķem de esgoto, e que 70% das cidades n√£o possuem esta√ß√Ķes de tratamento de esgoto.

Para o subcoordenador do INCT e professor do Departamento de Engenharia Sanitaria e Ambiental da UFMG, Cesar Mota, a detec√ß√£o do RNA viral no esgoto foi surpreendente, j√° que esse tipo de mol√©cula √© muito sens√≠vel a fatores ambientais. “Mesmo com tudo que h√° no esgoto, como √°cidos e temperaturas mais elevadas, foi poss√≠vel detectar esse RNA viral nos esgotos, tanto nas fezes como na urina”, disse, acrescentando que, at√© o momento, nenhuma pesquisa comprovou a transmiss√£o, via esgoto, da doen√ßa.

“O esgoto j√° √© uma fonte inesgot√°vel de doen√ßas. A covid-19 √© apenas mais uma. Por isso, usando equipamento de prote√ß√£o, a contamina√ß√£o √© evit√°vel. No entanto, precisamos ter cuidado com a transmiss√£o feco-nasal, uma vez que, no caso da Sars, j√° foi identificada contamina√ß√£o, por este meio, de residentes em pr√©dios de Hong Kong”, complementou.

Regi√Ķes

Representando a Secretaria de Sa√ļde do governo de Minas Gerais, o superintendente de Vigil√Ęncia Sanit√°ria estadual Filipe Laguardia disse que, "enquanto grande cliente do projeto”, o governo mineiro pretende identificar as regi√Ķes com maior incid√™ncia de infectados, de forma a auxiliar na tomada de decis√Ķes.

“Vemos alguns pontos motivadores para esse projeto. Um deles est√° relacionado √† novidade que a doen√ßa representa. Toda informa√ß√£o nova sobre o comportamento e o agravo desse v√≠rus √© importante. Um outro ponto √© a qualidade da proposta, que poder√° disponibilizar informa√ß√Ķes cient√≠ficas com as quais o poder p√ļblico poder√° se aliar”, disse o superintendente, animado tamb√©m com a possibilidade de emiss√£o de alertas precoces da circula√ß√£o do v√≠rus, a partir das an√°lises feitas nos esgotos.

Essas possibilidades podem, segundo ele, compensar pelo menos parcialmente algumas das limita√ß√Ķes pelas quais passam as autoridades sanit√°rias do pa√≠s. Entre elas, o fato de o n√ļmero de testes ser inferior √† demanda.

“Muitos desses testes s√£o de baixa qualidade. Al√©m disso √© grande o n√ļmero de subnotifica√ß√Ķes de casos confirmados, especialmente os assintom√°ticos. Uma outra limita√ß√£o √© a pouca previsibilidade da evolu√ß√£o da doen√ßa”, argumentou, referindo-se √† possibilidade de os exames considerarem tanto pessoas sintom√°ticas como as que n√£o apresentam sintomas.

De acordo com o superintendente de Desenvolvimento Tecnol√≥gico, Inova√ß√£o e Qualidade da Companha de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Marcus Tulius de Paula Reis, o projeto-piloto conta com 24 pontos de monitoramento. Dezoito deles na rede coletora, e os demais em pontos dos ribeir√Ķes Arridas e On√ßa; e em pontos de entrada e sa√≠da das esta√ß√Ķes de tratamentos de esgoto locais.

Edição: Fernando Fraga