Terreiro Axé Talabi comemora trinta anos de fundação


A cultura pernambucana é reconhecida nacionalmente, e em todo o mundo, pela beleza de suas manifestações, multiplicidades e diversidade, esta beleza, fundamentalmente, é fruto das histórias de luta e expressões de vida e cultura dos povos indígenas e negros e de seus espaços de origem e resistência. São as comunidades tradicionais de matriz afro-indígenas, conhecidas como terreiros, que estão presentes em todas as regiões geográficas do estado de  Pernambuco, e atuam como fontes inesgotáveis de saberes, fazeres e  histórias.

Foto: Rennan Peixe

Foto: Pai Júnior de Odé

Um destes espaços de resistência histórica está comemorando trinta anos de  fundação. Nas terras de Paratibe, comunidade localizada na cidade do  Paulista, região metropolitana do Recife, a partir da organização e perpetuação  do culto familiar de Aguinaldo Barbosa de França - Aguinaldo de Xangô (Obá  Dodê) e Maria da Solidade de Sousa França - Mãe Dada de Orixalá (Tàlàbí Deyìn), que no século passado, mais especificamente em 26 de janeiro de  1991, fundou-se o terreiro Ilé Àse Òrìsànlá Tàlàbí, nome de origem nagô que  significa: casa de força do grande orixá que nasce do pano branco, e está associado ao universo mitológico da divindade Orixalá, Orixá da criação na  mitologia yorubá, patrono do terreiro. 

Foto: Pai Júnior de Odé

A fundação da casa é um marco histórico para comunidade, principalmente por ter possibilitado que a tradição familiar dos fundadores não morresse e que os elementos da filosofia e cultura afro-indígena, que são as raízes do território, fossem preservados. Gestos, danças, indumentárias, cânticos, ritmos e o manejo tradicional da terra, das folhas e das águas são alguns destes elementos, que compõem o conjunto de bens do patrimônio cultural material e imaterial, resguardados ao longo destes trinta anos.

 

A atual Iyalorixá do terreiro, Mãe Lú de Yemanjá, filha carnal dos fundadores e 

A herdeira da cadeira que preserva a tradição matriarcal da família, destaca que: “Estes elementos preservados no terreiro são fundamentais para o fortalecimento do axé. Axé é a energia que mobiliza a tudo e a todos, é o poder de realização mais importante para a vida, para o nosso bem-estar, para o nosso caminho e para nossa saúde física e espiritual. Por isso que para nós tudo tem o seu axé. A família, as folhas, as comidas e nosso corpo são cheios deste poder de realização. O axé que meus pais plantaram aqui neste terreiro é para que possamos mudar as nossas vidas, é um axé que transforma”. 

Enquanto estiveram à frente do terreiro, ao longo de vinte e dois anos (de 1991 a 2013), os fundadores Mãe Dada de Orixalá e Aguinaldo de Xangô, ambos falecidos em maio de 2013, realizaram ações fundamentais para a segurança e longevidade do terreiro. Organizaram um calendário anual litúrgico, composto por rituais e festividades ofertadas às divindades e encantados cultuados na tradição religiosa; institucionalizaram a casa, criando o organismo jurídico Associação Beneficente, Cultural e Religiosa Ilê Axé Oxalá Talabi; e desenvolveram diversos projetos e programas de caráter socioeducacional e cultural que atuaram como ferramenta de integração social e fortalecimento dos laços afetivos e de pertencimento identitário. 

Atualmente o Terreiro Axé Talabi é uma organização sócio-religiosa de grande atuação no estado de Pernambuco e no Brasil. Desenvolve diversas ações nas áreas do patrimônio cultural, saúde, educação e cultura. Atividades que envolvem crianças, adolescentes, adultos e idosos no fortalecimento, promoção e registro do patrimônio cultural afro-indígena brasileiro. 

Em 2015 o Terreiro Axé Talabi foi reconhecido como Patrimônio Cultural dos  Povos e Comunidades de Matriz Africana pelo Instituto do Patrimônio Histórico  e Artístico Nacional - IPHAN em virtude das suas ações de salvaguarda,  preservação, valorização e documentação do patrimônio cultural afro-brasileiro, 

que em razão da sua originalidade, excepcionalidade ou caráter exemplar,  mereceram divulgação e reconhecimento público.  

Em março de 2020, por conta da pandemia do Covid19, o conselho religioso do terreiro usou suas redes sociais para publicar um comunicado de suspensão das suas atividades participativas, levando em consideração as orientações e recomendações dos órgãos competentes na direção de combater a disseminação do vírus. Desde então, e até que se estabeleça a normalidade de segurança da saúde pública, o conselho religioso da casa segue na direção de não retomar as festividades, visitas e atividades culturais abertas ao público, sendo realizados apenas os rituais internos estabelecidos pela vontade dos Orixás. 

A comemoração pelos trintas anos de fundação da casa acontecerá de forma interna, exclusivamente com a realização dos rituais de renovação dos laços espirituais e de fortalecimento do axé. Pai Júnior de Odé, membro do conselho religioso, destacou que será produzido um seminário comemorativo que será  realizado assim que a pandemia chegue ao fim e todos estejam seguros em participar. “Vamos preparar um evento lindo que envolverá toda a comunidade na comemoração, o grupo de trabalho de patrimonialização (GT de Patrimônio) já está trabalhando a mais de um ano neste projeto, na construção deste momento, que será somado a cerimônia de tombamento da casa a nível municipal e a inauguração do espaço museológico do terreiro. Mas só quando tudo isto passar. Por isto, peço aos Orixás e Encantados que nos proporcionem a alegria de em breve estarmos vacinados para juntos festejarmos.” 


Local:

Rua Orobó, 257, Arthur Lundgren I, Paulista/PE. 

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3 Comentários

Unknown disse…
Axé!
Vida longa a meu Ilê!
Anônimo disse…
Lugar de fé! Parabéns
Unknown disse…
Lindo trabalho e tradição. Muito Aşé